Era uma vez reino próspero. Perto desse reino havia uma torre. Uma torre não muito alta, porém muito forte, com fundações bem estruturadas e muito bonita. A torre tinha apenas uma entrada; logo, tinha também apenas uma saída. E em frente a essa portal, havia um homem. Um homem não muito alto, não muito assustador, nem musculoso ele era. Era um homem simples, do tipo que mais se vê em qualquer vila da cidade.
Mas havia algo que intrigava a todos os camponeses. Ninguém sabia dizer o porquê de aquele homem passar dias e noites incessantes em frente àquela torre. Mal comia, mal bebia, mal dormia: ele apenas ficava em frente à torre fazendo vigília. Uns diziam que havia um tesouro, que havia algo com um valor inestimável. Arriscaram a dizer que a torre guardava uma feitiço, e que o homem havia sido enfeitiçado por ela, e por isso estava sempre ali, como um tipo de castigo. Diziam de tudo. Achavam tudo. Especulavam as mais insólitas hipóteses. Não sabiam de nada.
Até que num belo dia, o Rei não conseguiu mais conviver com a dúvida na cabeça, ele estava decidido a descobrir o que aquela torre tão bela guardava. Ele tinha que saber a verdade sobre aquela vigília incessante. Ele queria saber o real valor de todo aquele sacrifício. Então, o Rei mandou alguns de seus soldados irem até o homem e pedir para que ele os deixasse entrar e averiguar a torre. Quando lá chegaram, eles trataram o homem com uma grosseria sobre-humana, insana e estúpida. O homem não cedeu. Os soldados o atacaram; o homem, que mostrou habilidade de sobra, lutou contra os soldados e os derrotou.
O Rei, chocado com a notícia da derrota de seus soldados, enviou seu mais bravo guarda, com cães de caça famintos. E ao chegarem lá, o homem estava preparado, firme, com olhar digno de respeito. Mais uma vez, houve confronto. Um confronto mais longo, mas sem mortes, tal como o outro. Mais um confronto vencido pelo homem.
O Rei já não entendia mais como um simples homem, humilde e singular como aquele, havia derrotado seu mais bravo guarda e seus cães, seus soldados. Daí que veio a ideia de mandar mais soldados, mais guardas. Inúmeros deles. Um ato de ira, de instinto, de obsessão. O Rei, dessa vez, decidiu ver a batalha, seguro de que veria o sangue daquele homem escorrendo perto do portal da torre. Depois de algumas horas de batalha, muitos homens abatidos, muitos outros assustados que nem ousaram enfrentar o incrível homem. Era como se fossem os 300 espartanos em apenas uma pessoa. A essa altura, o homem estava mais fraco, mais frágil; mas ainda assim, ele estava preparado para o que tivesse que acontecer. O Rei resolveu se aproximar e, ao perceber que o homem estava sem armas, sem espadas, apenas a próprio punho, parou. Parou e ali ficou minutos, pensando. Pensando em como aquele homem defendeu a torre apenas com os braços, pernas, mãos. Pensando ainda em qual o valor daquilo que estava na torre. O Rei, então, se aproximou do homem e o ofereceu muitas riquezas para defender o reino. Ouro, mulheres, jóias, terras; poder. O homem, com todo respeito e humildade, negou a todas as ofertas. O homem notou a expressão de frustração do Rei e fez questão de retribuir o gesto, com uma expressão mais intensa e mais significativa. O homem estava decidido, nada o faria mudar de opinião. O Rei percebeu que sua obsessão era grande, mas menor que seu medo; percebeu ainda que seu medo era enorme, mas era infinitamente menor que a determinação do simples homem. Nada era maior que isso.
O Rei saiu dali raivoso.
O Rei nunca mais voltou àquele lugar, nem mais enviou servos para enfrentar o homem.
A verdade? A verdade é que havia sim um tesouro, havia sim algo com um valor inestimável. Havia um feitiço e sim, ele estava enfeitiçado. Ele vivia um tipo de castigo, arrisco até a dizer quer um sacrifício. E digo mais ainda: a felicidade dele era viver assim e de nenhum outro jeito.
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